As realidades e as simulações dos fake-news

Por em outubro 24, 2019 1:12 pm , Categorias:

 

 

Há uma grande expectativa – que logo será também nervosa – pelas conclusões da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que apura a divulgação de informações falsas, a CPI das Fake News (Notícias Falsas). Seus membros convocaram as primeiras 29 pessoas que irão prestar depoimentos sobre o assunto. São, na maioria, ligadas a partidos, órgãos governamentais e profissões liberais.

 

É uma questão das mais importantes no Brasil de hoje. A febre de notícias falsas tomou conta dos meios de comunicação, principalmente as mídias sociais. O Facebook é o campeão deste maldito e inescrupuloso exercício de maledicência gratuita. Não há limites para as pessoas despidas de valores como a educação, a ética e a civilidade. Nem limites, nem obstáculos. Impunemente, criam seus monstros devastadores da honra e da moral alheias.

 

Formada por 15 deputados federais e 15 senadores, sob a presidência do senador Ângelo Coronel (PSD/BA), a CPI das Fake News foi instituída para investigar “ataques cibernéticos que atentam contra a democracia e o debate público”, o que inclui a criação de perfis falsos nas redes sociais para influenciar as eleições presidenciais de 2018 e a prática de “ciberbullying” contra autoridades e cidadãos. Outro objetivo é investigar o aliciamento de crianças para a prática de crimes como os de ódio e suicídio.

 

O escritor George Orwell, na obra-prima ‘1984’, anotou: “A modificação do passado é necessária por duas razões, uma das quais secundária e, por assim dizer, preventiva. A razão secundária é que o membro do Partido, tal como o proletário, tolera as condições vigentes em parte porque não tem os termos de comparação”. Esta é uma referência ao dever do Ministério da Verdade, responsável por falsificar registros históricos a fim de atender aos interesses do Grande Irmão, ditador e líder do Partido.

 

O estudo ‘Fake News: Desafios das Organizações’, da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje), fez um levantamento de fevereiro a abril de 2018 para dimensionar e traduzir o problema causado pela disseminação de notícias falsas dentro do ambiente de trabalho. E constatou que 85% de 52 empresas manifestavam a preocupação com as notícias falsas, embora acreditando que eventuais riscos possam ser mitigados ou evitados.

 

O diretor-geral da Aberje, Hamilton dos Santos, chama a atenção para a velhice da prática: “As fake news estão na indústria da comunicação desde os primórdios. A imprensa aprendeu a lidar com as notícias falsas, já que ela sempre contou com seus protocolos jornalísticos”. A seu ver, as fake news ganharam maior visibilidade, nos últimos tempos, por conta da guerra de narrativas.

 

Assim, é possível entender que boataria e notícia falsa – as mesmas coisas – já estão arraigadas no comportamento de muitos humanos que dispensam cuidados básicos como o respeito, a ética, a educação. São os brutamontes do horror. Não se incomodam que as crianças, hoje de amplo e livre acesso às redes sociais, se deparem todos os dias com informações falsas, distorcidas ou maquiadas que vão contraditar aquilo que se é ensinado em casa ou nas instituições de ensino.

 

Na política o desastre é medonho. Honras são atacadas, de todas as formas e conteúdos. As fotomontagens exibem de tudo, desde uma suposta traição conjugal e históricos dantescos envolvendo pessoas em cenas e “notícias” de aberrações religiosas ou atos criminosos. Em Mato Gross do Sul, denúncias e acusações são disseminadas com estruturas de imagens e textos elaboradas para dar a impressão de que acusados ou denunciados já receberam a sentença criminal.

 

De acordo com o estudo da Aberje, os principais canais de acesso à informação que conduzem as notícias falsas são jornais e revistas online (74%), jornais impressos (67%), revistas impressas (39%), agências de notícias (39%), mídias sociais (28%), televisão (22%) e blogs e fóruns onlines (2%). Quem respondeu à pesquisa acredita que as mídias digitais são as que mais publicam fake news.

 

E estes danos morais dificilmente são recuperados, ainda que os criminosos das fake news sejam descobertos e punidos. Por tudo isso, a CPMI Mista tem nas suas mãos a possibilidade clara de atacar os difamadores, criminosos que operam notadamente nas redes sociais, e ajustá-los no devido enquadramento criminal. Chega de impunidade!

 

GERALDO SILVA