O Centro não revive morrendo

Por em março 25, 2019 12:33 pm , Categorias:

 

 

Com investimentos que nesta etapa representam cerca de R$ 50 milhões – e podem chegar a R$ 62 milhões com um aditivo das arábias -, a Prefeitura desenvolve o Projeto Reviva Centro. As obras são custeadas pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e foram “vendidas” pelo prefeito Marquinhos Trad, do PSD, como salvação da lavoura urbana da capital de Mato Grosso do Sul.

 

Uma salvação que para o prefeito significa avanços econômicos, sociais e ambientais, com ganhos na revitalização do comércio, na mobilidade dos pedestres e do trânsito, na convivência entre as pessoas e na modernização do perfil urbano. Tudo muito lindo, argumentação consistente e arrebatadora, exposição de motivos que garantiu a repatriação do financiamento – estava congelado havia mais de quatro anos.

 

Todavia, para a população, e sobretudo quem mora ou trabalha na região, a realidade é o presente…e o presente não passa de falácia. Esta é a cena que se visualiza pelas avaliações de hoje sobre o andamento e os impactos futuros do projeto. As obras se arrastam indefinidamente. As previsões do prefeito só se confirmarão ou serão desfeitas quando a execução do projeto estiver concluída e a população experimentando suas consequências.

 

De antemão, com 55% apenas executados do total da Rua 14 de Julho, algumas trapalhadas técnicas e operacionais reforçam as expectativas pessimistas, como aconteceu quando tivera que recolocar um calçamento porque os encarregados se esqueceram de assentar o piso tátil. Erro grosseiro. No mesmo diapasão se encaixam a confusão e os embaraços de condutores e pedestres no pedaço concluído, onde não se sabe se o arranjo é para atender quem caminha ou quem dirige veículo.

 

O horizonte colorido traçado pelo prefeito para a área nobre mais tradicional e glamourosa da cidade acinzentou-se com a pesquisa divulgada pela Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), segundo a qual as obras do Reviva Centro, iniciadas em abril do ano passado, estão associadas ao fechamento de mais ou menos 1,5 mil estabelecimentos comerciais e a cerca de 7,5 mil demissões.

 

Antes que os ânimos mais exaltados entre quem discorda e quem concorda com esse levantamento se manifestem na sua mais extrema radicalidade, é bom atentar para um fato determinante: o prazo de duração e as características das obras são efetivamente contextualizadas no conceito de revitalização? Ou esta é apenas uma força de expressão para ornamentar a capa de uma ideia necessária elogiável, mas sem o conteúdo adequado para o que é verdadeiramente essencial à cidade?

 

Afinal, não é o centro uma região estanque, a girar em torno de si mesmo com suas gentes, seus carros, seus consumos, seus impostos e seus devaneios diários. É uma parte intrínseca da dinâmica geral de uma cidade que cresce quase sem freios e está beirando um milhão de moradores, com uma das maiores concentrações de veículos por pessoa no País e um comércio que figura entre os pilares da receita geral do Município. Definitivamente, uma urbe tão grandiosa não foi feita para ser gerida por amadores.

 

A CDL, parceira insuspeita da Prefeitura em diversas iniciativas, não iria abrir guerra contra um prefeito que a classe apoiou politicamente, divulgando uma pesquisa sem a devida base técnica e científica. O prefeito rebate a informação, garante que antes das obras já era grande o número de empresas fechadas e que o projeto foi concebido para, exatamente, dar vida nova ao centro, criar estímulos inovadores para o consumo. Mas os meios para isso não foram bem amadurecidos com a sociedade e em especial os lojistas e empregados do comércio.

 

Que o prefeito se contente com o que tem agora, que é a responsabilidade de seguir tocando a obra e terminar o que começou, o mais rapidamente possível. Mas que se prepare e ajuste bem as explicações de hoje e de amanhã, quando for inaugurar um benefício que muitos potenciais usufrutuários do centro não poderão mais desfrutar porque terão cansado ou não suportaram emocional e financeiramente esperar pelo imprevisível.

 

GERALDO SILVA