Lavando as mãos, prefeito joga paciente contra servidor

Cotidiano de quem depende do SUS e das unidades de saúde em Campo Grande: esperar, esperar e esperar Por em março 20, 2019 12:20 pm , Categorias: Categorias: Categorias:

 

 

Ao por a culpa na população e não assumir as deficiências de seu papel na gestão da saúde, o prefeito coloca a clientela do SUS em pé-de-guerra com os servidores do sistema municipal. Diz que o costume dos campo-grandenses de procurar os postos 24 horas sem necessidade é um dos fatores do congestionamento da demanda. “Temos investido em unidades da família, mas as pessoas insistem em ir direto a UPA, não procuram atendimento primeiro nas Unidades Básicas”, argumentou, como se as pessoas comuns, sobretudo as que moram em bairros afastados e carentes, tivessem que deixar de ir à unidade mais próxima de casa para recorrer a postos mais distantes sem saber se um vômito é de natureza simples ou sintoma de doenças mais graves.

 

Há quem tente fazer o que o prefeito sugere e em vez de ir ao 24 horas vai à Unidade Básica de Saúde. Ao chegar, não encontra vagas e não consegue ser atendido. A escolha por uma unidade apropriada geralmente não funciona. É o que houve com o motorista Celso Macena dos Santos: “Fui ao Nova Bahia e estava cheio, com quatro médicos atendendo. Mais de três horas esperando e fui embora”. Sem opção, foi à UPA Coronel Antonino na esperança de ser atendido com maior rapidez.

 

CHECAGEM

 

Para ver de perto a situação e ouvir pacientes e funcionários, o Canal da Voz visitou três UPAs na noite de quarta-feira, 13. E constatou a precariedade dos serviços, sobretudo pela diferença entre a enorme demanda e a deficiência estrutural para dar a cobertura proporcional correspondente.

 

Na UPA Vila Almeida a dona-de-casa Carmen Fortes desabafou: “Fiquei uma hora aguardando a triagem. Vim pegar o resultado de um exame feito ontem, para saber o diagnóstico. O resultado veio zerado e aqui eles não sabem me dizer por quê. Acham que foi extraviada a amostra de sangue ou talvez coagulou. Não sabem. Me mandaram novamente pra fila, onde fiquei ontem por três horas, e estou sem diagnóstico. Então, estou desistindo e vou com minha filha doente pra casa, com febre”.

 

Outra dona-de-casa, Keila Dionísio, passou horas amargas na UPA da Vila Almeida. “Cheguei aqui dez para as três e estou saindo sete da noite. Um atendimento péssimo. Minha filhinha sentindo dor, desde três horas chorando. Fui reclamar no atendimento, foi péssimo também, um mais ignorante que outro. Está bem complicado esse posto”. Na UPA Coronel Antonino, Maria Lúcia e o companheiro atravessaram várias horas aguardando a chamada do médico. “A gente com dor, sai de uma fila na triagem, entra em outra, é muita gente. Isso é uma coisa que precisa melhorar, a gente paga imposto”, diziam. O casal chegou ao posto às 15h e só saiu após as 20h.

 

 

Depois da visita, a direção do Canal postou: “Estivemos acompanhando a situação dos postos de saúde da capital morena e sentimos na pele o sofrimento e a falta de atenção para com os pacientes enfermos. Precisamos urgente de uma atuação mais incisiva da gestão pública na nossa cidade. Prefeito Marquinhos Trad, contamos com você. A população clama!”. O Canal da Voz pediu algumas informações às unidades. As UPAs Nova Bahia e Coronel Antonino não informaram o número de médicos, mas o da Coronel Antonino disse que estava com sete pediatras e quatro clínicos-gerais.

 

NA PAREDE

 

Os profissionais da área de saúde acuam o prefeito e cobram sua responsabilidade. O presidente do Sindicato dos Servidores Municipais (Sisem), Marcos Tabosa, lamentou o que houve com o enfermeiro João na UPA e disse que a conta é da má gestão de Marquinhos Trad. “O prefeito está indo aos postos 24 horas pra fazer política. O senhor pode fazer, mas não pode incitar a população contra o servidor público. Ele não é. Culpado é o senhor, é a sua administração, que não investe no 24 horas, no UBSF, no UBS. Tem que investir, contratar mais médicos, equipar postos, contratar mais servidores, investir em concurso. O senhor está incitando contra o servidor. O Sisem não vai aceitar isso. Nós vamos tomar duras providências”.

 

 

Para o Sinte/PMCG (Sindicato dos Trabalhadores Públicos em Enfermagem de Campo Grande), o cotidiano nas unidades de saúde é semelhante a uma bomba-relógio. A comparação foi feita pelo presidente da entidade, Ângelo Macedo, após o incidente na UPA Coronel Antonino. “Depois que acontecer algo pior, e lutamos para que não aconteça, as pessoas vão ser responsabilizadas por conta da sua omissão”, disparou.