MDB estadual hoje é cópia piorada do nacional

Grupo de André Puccinelli, principal líder regional da sigla, coleciona denúncias e é alvo de várias investigações Por em junho 26, 2018 2:15 pm , Categorias: Categorias: Categorias:

 

 

O MDB (Movimento Democrático Brasileiro) dos anos 1960 virou PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro) nos anos 1980 e acaba de reassumir o nome original, como se isso bastasse para sair dos desgastes que acumulou e reeditar os áureos e gloriosos dias de combate à ditadura e à corrupção, com amplo apoio da sociedade. Hoje, o MDB de Michel Temer, o presidente mais impopular da história brasileira, não é sequer uma sombra daquele que saiu da pia batismal identificado como a maior frente político-partidária do continente.

 

A vergonhosa realidade do MDB e de emedebistas nestes anos de desmonte dos esquemas de corrupção está espelhada em todos os âmbitos federativos de atuação da sigla. Se no plano nacional essa marca incomoda e envergonha, semelhante é a situação nos estados. Só a Operação Lava Jato, uma das dezenas que foram deflagradas no combate à corrupção, enquadrou vários nomes famosos do partido em diferentes procedimentos investigatórios e judiciais. Foram parar na cadeia figurões como o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha; o ex-ministro Geddel Vieira Lima; o ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral; e os ex-deputados Henrique Eduardo Alves e Rocha Loures.

 

Em Mato Grosso do Sul, o emedebismo é liderado pelo ex-governador e pré-candidato à sucessão André Puccinelli. Sua pré-candidatura, no entanto, foi lançada sob um intenso e sistemático cerco de dúvidas plantadas por denúncias e investigações envolvendo forças-tarefa de órgãos de fiscalização, controle e repressão ao crime, como Polícia Federal, Receita Federal, Controladoria-Geral da União e Tribunal de Contas (TCU). A exemplo de seus correligionários alojados no topo da política nacional, Puccinelli e seu grupo também passaram por perrengues do gênero: detenção, mandado de busca e apreensão, uso de tornozeleira eletrônica, bloqueio patrimonial e interrogatórios.

 

Para o Ministério Público Federal, não há dúvida que a presença de Puccinelli no comando político-administrativo do Estado coincidiu com o ciclo mais danoso para os cofres públicos. As operações especiais desenvolvidas pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) desvendaram um poderoso esquema de desvio de verbas durante os oito anos em que o MDB de Puccinelli governou.

 

 

PEÇAS-CHAVE

 

As investigações não apuraram exatamente o tamanho dos desfalques praticados, mas a cifra passa da casa do bilhão. O grupo andrezista-emedebista teve alguns operadores-chave, todos da absoluta confiança de Puccinelli e agindo com sua orientação, segundo o MP. A lista contém nomes como os dos empreiteiros João Alberto Amorim e João Baird, que venciam a maioria das principais licitações de obras públicas; o ex-deputado federal e ex-secretário de Obras Edson Giroto; o ex-secretário de Fazenda, André Cance; o empresário Mirched Jafar, proprietário da Gráfica e Editora Alvorada; e o ex-deputado, ex-prefeito de Paranaíba e ex-presidente da Agesul (Agência de Gestão de Empreendimentos), Wilson Roberto Mariano.

 

A força-tarefa chegou a fazer também a detenção do advogado André Jr, filho do ex-governador, acusado pela PF de emprestar uma empresa para colaborar com a desova de recursos. Ele foi liberado logo depois de detido. Outros integrantes da organização eram assessores, amigos e parentes, que se encarregavam de funções específicas, como fazia, entre outros, Mirched Jafar, que pôs sua gráfica num esquema fraudulento de venda de livros já no apagar das luzes do governo de Puccinelli. O empresário é outro que chegou a ser preso, assim como Amorim, Mariano e Cance.

 

 

DERROTAS

 

No pano de fundo de toda essa engenharia estava o interesse do MDB de conservar o poder, não só estadual, mas de garantir o domínio de municípios. A obsessão pelo poder e a falta de limites para não perdê-lo e ampliá-lo explica o que ocorreu em Campo Grande em 2012, quando Puccinelli não teve apoio dos próprios filiados do MDB para emplacar a candidatura de Giroto à sucessão de Nelsinho Trad, que na época pertencia ao partido. Sem conseguir impor sua vontade, deslocou Giroto para o PR e o fez candidato, neutralizando o MDB na disputa. Forçou a barra e teve dura resposta das urnas, quando Giroto foi derrotado pelo radialista e deputado estadual Alcides Bernal, no segundo turno, destronando um reino de mais de 20 anos de peemedebismo.

 

 

Com o peso das várias denúncias e o fracasso da candidatura de Giroto em seu maior reduto eleitoral, Puccinelli transformou o MDB num partido perdedor, de filiados e de eleições. Em 2014, lançou Nelsinho Trad à sua sucessão e o candidato nem passou para o segundo turno, disputado pelo tucano Reinaldo Azambuja, o vencedor, e o petista Delcídio Amaral. Em 2016, nas eleições municipais, o PMDB encolheu, deixou de ser o grande bicho-papão das urnas e viu o PSDB ocupar um lugar que foi seu por mais de duas décadas, no topo do pódio.

 

 

QUEDA LIVRE

 

Embora seja legalmente permitida, tendo em vista que não sofreu nenhum tipo de condenação, a pré-candidatura de Puccinelli ao Governo começa a entrar numa fase aguda de definições. Uma delas é a das coligações. Aproximam-se as convenções e as forças políticas e partidárias querem se aliar com a segurança não encontrada num candidato que, mesmo pontuando entre os três primeiros nas intenções de voto, é também o líder das rejeições. Este ao menos é o cenário de queda livre desenhado por sucessivas pesquisas registradas na Justiça Eleitoral e publicadas.

 

Em abril, na pesquisa estimulada feita pelo DATAMAX só em Campo Grande entre os dias 5 e 8, Puccinelli é o mais rejeitado, com 32,2% de citações, mais que o dobro do segundo colocado, Reinaldo Azambuja, com 12,6%. A pesquisa foi registrada na Justiça Eleitoral, tanto em âmbito estadual quanto federal, sob os números MS-09178/2018 e BR-08909/2018. Foram ouvidos 804 eleitores em Campo Grande entre 5 e 8 de abril.

 

 

Outra empresa, a Ranking Comunicações e Pesquisa, vem sondando a tabela de rejeições dos concorrentes ao governo desde o ano passado. Em dezembro de 2017, em entrevista com 3 mil pessoas de 17 municípios entre os dias 4 e 12, Puccinelli era o mais rejeitado, com 29,13%.

 

Na pesquisa mais atual, da Ranking, foram consultadas de 30 de maio a 5 de junho deste mês 1.200 pessoas em 30 municípios (registros na Justiça Eleitoral: MS-04644/18 e BR-02574/18). A rejeição a Puccinelli permanece alta, no mesmo nível da que foi apurada em abril: 28,8%. E isso provavelmente esteja prejudicando o desempenho do senador Waldemir Moka, candidato do partido à reeleição. Nesta pesquisa da Ranking, Moka tem 3,16% na estimulada e se as eleições fossem no dia das entrevistas ele não seria reeleito, mesmo com duas vagas em disputa. Perderia para Nelsinho Trad (PTB), com 8,08%, e Zeca do PT, com 6,91%. A margem de erro é 2,8 pontos percentuais, para mais ou para menos.