André Salineiro: “Política não é profissão, o eleitor deve ficar atento ao caráter do candidato”

Por em agosto 15, 2016 3:36 pm , Categorias:

Candidato a deputado estadual em 2014 com mais de oito mil votos, o agente da Polícia Federal André Salineiro, 40 anos, é um dos principais nomes do PSDB para a disputa de uma cadeira na Câmara Municipal de Campo Grande nas eleições deste ano. Ele defende um novo modelo de fazer política, onde deve prevalecer a “ficha limpa” do candidato e não seu belo discurso, e quer contribuir para o projeto de Rose Modesto na reconstrução da Capital.

“A gestão do nosso atual prefeito é lamentável. É realmente pura incompetência. Se você for ver o que os cofres públicos dessa Capital arrecada, daria para fazer muito. E outra: falta investir na transparência, no bom governo, no planejamento estratégico”, critica Salineiro, que também defende um maior comprometimento do vereador na fiscalização dos recursos e da administração municipal. “O papel do vereador não é apenas criar leis.”

O candidato tucano cursou duas faculdades (Direito e Fisioterapia), tem pós-graduação em Gestão Empresarial, Direito Penal e Direito Processual Penal e especializou-se em Sistema em Gestão e Segurança Pública e no Uso da Informação na Gestão da Segurança Pública. Também professor na Academia Nacional de Polícia, cobra mais recursos e um planejamento estratégico contínuo para a segurança pública, cujo modelo atual considera falido.

Preocupado com a escalada da violência e das drogas, André Salineiro realiza um trabalho social e voluntário junto a centenas de jovens da Capital, por meio de palestras, sobre prevenção ao vício e combate à criminalidade. Ele é também é escritor, autor de três livros, dentre os quais “Gestão Estratégica em Segurança Pública”. Nesta entrevista à FOLHA, fala sobre seu projeto político e a importância da eleição de Rose Modesto para mudar Campo Grande.

 

FOLHA DE CAMPO GRANDE – O senhor lançou recentemente um livro onde aborda a questão estratégica em segurança pública. Qual o cenário do Brasil hoje nessa área?

ANDRÉ SALINEIRO – “O cenário é um dos piores. Não poderia ser pior, principalmente pelo seu prognóstico, que não é favorável. Não vemos uma saída a longo prazo para o Brasil, se não mudarmos, claro, a forma de encarar a segurança pública, que tem um modelo falido, e foi comprovado. Exemplo disso é o nível dos homicídios no Brasil. Para você ter uma ideia, hoje temos uma média de 150 mortes de brasileiros por dia. Sem dúvida, um número altíssimo. O Brasil sempre teve esse número elevado e continua aumentando. O grande problema é que as políticas públicas mais eficazes na área de segurança pública não são de médio e longo prazo, e não tem nenhum governante que se preocupa a fazer melhorias a médio e longo prazo. A maioria é a curto prazo, no tempo do seu governo, o que não dá certo. Tem como melhorar? Tem, mas temos que começar a nos dedicarmos mais em segurança pública. Olha o absurdo: a segurança pública é um dos poucos setores que não tem uma verba predestinada mensalmente. A saúde e a educação tem repasses obrigatórios, a segurança não tem. Então, fica a mercê de cada governante a dedicar o que ele acha conveniente para este setor.”

FCG – A Polícia Federal vem agindo como a guardiã do dinheiro público, o nosso dinheiro, diante de tanta corrupção no poder público?

AS – “Não posso falar pela Polícia Federal, mas digo que ela, juntamente com o Ministério Público, tem um importante controle no combate à corrupção. Também a Defensoria Pública, o próprio Judiciário. Creio que é um conjunto de órgãos e instituições que estão fazendo o seu papel. E por que tem que dar realmente uma ênfase nisso? Porque a corrupção é, realmente, a grande mazela desse país. A corrupção gera desemprego, faz a população sofrer. Se, por exemplo, falta remédio em um posto de saúde, ou se se falta um médico, um atendimento digno, é porque desvios (de recursos) foram executados na área da saúde. Eu tenho uma convicção: dinheiro para a saúde nunca faltou. O governo destina mensalmente uma percentagem de sua receita para a saúde. Falta competência e eficiência, e acima de tudo, que esse dinheiro seja bem aplicado e que não haja desvio. E ai a gente entra numa das funções que cabe ao vereador. O vereador não só cria projetos para atender a população, ele deve também fiscalizar e investigar o que a prefeitura aplica em recursos públicos, principalmente na saúde. Tem que ter coragem de denunciar qualquer contrato ou repasse. Para onde está indo esse dinheiro? O vereador é o representante da população.”

FCG – Como o senhor analisa a ação do Judiciário, sobretudo a atuação do juiz Sérgio Moro, nas investigações contra os corruptores desse País?

AS – “O Sérgio Moro tem um papel fundamental. Sempre houve investigações por parte das polícias judiciárias sobre corrupção nos organismos públicos. Mas sempre faltava alguém que batesse no peito e assumisse a bronca. Não, deixa comigo que vou segurar o que vier de retaliação do Poder Legislativo. Por isso, o juiz Sérgio Moto tem todo seu mérito nisso. É bom que a população entenda, também, que não é o juiz Sérgio Moro que faz as investigações. As investigações, no caso da Lava Jato, é a Polícia Federal e repassa para ele e para a Procuradoria da República, que também feito excelente trabalho, denunciando, tomando a iniciativa de aumentar o rol de pessoas envolvidas nos crimes, e o juiz faz a parte que o Judiciário deve fazer.”

FCG – Além de suas atribuições como policial, o senhor desenvolve ações sociais voltadas ao combate e prevenção às drogas. Como é este trabalho?

AS – “Comecei esse trabalho voluntário e social há quatro anos e o realizo nos meus dias de folga na Polícia Federal. Hoje, sempre digo, é minha válvula de escape, os testemunhos que recebo me dão motivação para continuar. O principal objetivo é salvar vidas, resgatar sonhos, porque é uma palestra motivacional. A gente aborda tópicos como prevenção às drogas, combate ao crime, mas, acima de tudo, planejamento de vida, ressocialização. Olha que interessante, no início comecei a trabalhar com os jovens falando nesses temas de uma forma técnica e observei que não dava tanto resultado. Fui, então, procurando tocar o coração deles, transformando numa palestra motivacional. Hoje, ela é 100% motivacional, e o resultado é fantástico. Minha caixa de mensagens fica cheia de pessoas me incentivando, de alunos que já assistiram e incentivam a continuar esse processo. Essa ideia nasceu de necessidade que eu vi de aumentar o trabalho na prevenção. Como policial, eu trabalho na repressão, diariamente na repressão. Mas eu garanto que a prevenção dá muito mais resultado que a repressão. Um fato que me motivou nesse trabalho foi quando prendi um jovem que tinha completado 18 anos e tentava embarcar no aeroporto com droga. Sensibilizei com a história dele, conversei muito com ele antes de ser ouvido. Mantenho contato com ele até hoje, ele não é do nosso Estado, já cumpriu sua pena de quatro anos. Está estudando, está no mercado de trabalho e, o legal de tudo, hoje é testemunho para outros jovens. Quando vê amigos querendo entrar para o mundo das drogas, ele dá seu testemunho de vida. Foi a primeira pessoa que eu vi, com poucas palavras, a mudar seu comportamento. Isso me estimulou a levar estas informações para mais pessoas.”

FCG – Como o senhor realiza esse tipo de trabalho? Conta com algum tipo de apoio?

AS – “Não, é uma iniciativa voluntária, no dia de folga mesmo. Vou sozinho nos bairros. A gente encontra algum tipo de dificuldade por ser só. Seria interesse se houvesse mais pessoas realizando esse trabalho, cuja ideia é multiplicar as informações, os pensamentos. Contudo, é difícil, a gente não consegue mais voluntários. Para você ter uma ideia fui fazer esta palestra no presídio de Campo Grande. Foi excelente. Hoje os detentos pedem que a gente volte com outros temas. Uma das falas nossa nessa palestra é: “todo dia é um começo, não importa se você é usuário, um criminoso, o que importa é hoje, amanhã, no dia que você falar vou mudar minha vida, você muda”. Com essa linha, demos palestra no presídio. Também acho importante não ter apoio de órgãos, instituições. Tem que continuar sendo um trabalho voluntário, senão perde essa questão social. Pra mim não é nada demais, faço isso nos dias de folga. Já dei palestras nos três períodos, mas não é comum; geralmente é uma palestra por dia.”

FCG – Que projetos senhor tem para Campo Grande se chegar à Câmara de Vereadores?

AS – “Vejo a Câmara de Vereadores como a principal fonte de mudança da nossa Capital. Por que digo isso? As grandes mudanças que queremos tem que começar na base. Toda grande mudança, na vida, onde for, tem que começar na base. E onde é a base de Campo Grande? É a Câmara. Eu olho hoje para aquela Câmara de Vereadores e chega a ser triste constatar ali que poucos, muito poucos, têm legitimidade para estar ali. Poucos, muito poucos, conhecem e tem realmente um plano para resolver os problemas da nossa População. Então, falta o que ali na Câmara, onde a gente quer agir? Falta transparência, falta gestão estratégica, falta planejamento, ética, falta modernização. E, acima de tudo, falta eficiência de serviço público prestado à população. E o vereador pode agir nisso? Claro. É função do vereador, ele não cria apenas projetos de leis, mas também projetos que atendam as necessidades da população. É como falei, ele fiscaliza e investiga. Então, é uma função primordial dele atuar em todos os setores, e ele pode atuar. Tem pessoas que acham que a função do vereador é apenas criar leis. Fui a uma sessão da Câmara e achei um absurdo. A pauta principal do dia era que nome de autoridade seria dada a determinada rua da cidade. Aí a gente vê o nível em que estamos e o que precisa ser mudado. Meu nome está ai à disposição, mas não é só o nome do André Salineiro. Tem muitas pessoas competentes colocando sua cara a tapa, muitas das quais tem todo o meu respeito. Posso citar um grande amigo meu, o Eduardo Cury, também o doutor Livio… Vale como uma dica que posso deixar ao eleitor: não avaliem as propostas dos candidatos, a maioria chega lá e não cumpre. Ouça as propostas, até para saber se ele (candidato) não está fora da casinha, mas avalie o caráter da pessoa, a idoneidade, índole, o histórico, vida pregressa; o que essa pessoa fez pela sociedade quando poderia ter feito. Dessa forma, vamos saber se o candidato vai cumprir o que fala.”

FCG – É possível classificar a atual gestão da Capital diante de tantos desmandos, incompetência e abandono?

AS – “Campo Grande é uma cidade maravilhosa, belíssima, e tem muito a crescer. Aqui eu cresci, estou criando minhas filhas e pretendo ficar eternamente. A população está tão carente de bons administradores, que na falta de nomes que a represente, acaba votando no menos pior. Creio que pode ser isso que aconteceu na eleição passada, criando todo esse problema. A gestão do nosso atual prefeito é lamentável, é lamentável. É realmente pura incompetência. Se você for ver o que os cofres públicos dessa Capital arrecada, daria para fazer muito. E outra: falta investir na transparência, no bom governo, no planejamento estratégico. A saúde está um caos, me preocupa muito também a segurança. Eu li uma reportagem de uma mulher que foi assaltada chegando no portão de sua casa com dois filhos menores no carro. Por pouco os assaltaram não levaram as crianças. Tem sido um delito muito comum, todo dia tem ocorrências desse tipo, qualquer pessoa pode ser vítima. A segurança pública vem em primeiro lugar em preocupação da população, depois vem a saúde e educação. Enquanto as pessoas não experimentarem a sensação de insegurança, elas não vão se atentar para os riscos que estão correndo. Não que os outros setores não sejam importantes, pelo contrário. O meu quarto livro é na área da educação e tem o título “O papel da educação no controle da violência”. A saúde nem se fala. Mas a gente não pode deixar de se atentar para a segurança pública.”

FCG – Até que ponto a afinidade da candidata Rosa Modesto com o governo estadual pode contribuir para a reconstrução de Campo Grande?

AS – “Você ter uma prefeitura aliada ao governo estadual é muito importante. Você concilia projetos, consegue fazer uma gestão muito mais fácil. Fora isso, a gente tem o histórico da Rose, que mostrou realmente estar preparada. Seu vice, Cláudio Mendonça, uma pessoa extremamente competente na área de gestão, comprovou isso à frente do Sebrae, e tem muito a acrescentar, ajudar a gerir a gestão de Campo Grande. E quando a gente fala dos problemas que Campo Grande passa nesse momento, é justamente por não ter uma pessoa que assuma o papel de gestor e que saiba fazer isso. Administrar é um dom e o Cláudio veio a complementar esta chapa. A Rose quer mudar, ela tem umas ideias excelentes em todas as áreas e quer transformar cidadãos. E acima de tudo, a parceria do Estado e Prefeitura é muito importante e vai dar suporte a todos esses projetos que a Rose e o Cláudio querem para mudar de fato Campo Grande.”

FCG – Qual a avaliação que o senhor faz do governo de Reinaldo Azambuja?

AS – “Passamos pouco tempo, um ano e meio praticamente de governo, muita coisa se fez e está ainda por vir até 2018. O Reinaldo pegou uma casa bagunçada, totalmente comprometida, e pior, um Estado endividado, com uma centena de obras paralisadas e suspeitas de contratos superfaturados. O que o Reinaldo fez nesse primeiro momento é o que um gestor faria; você se organiza, tenho o conhecimento de como está a situação. Acho que daqui pra frente muitas coisas boas ainda vão acontecer, aí sim a gente poderá ver o resultado de um planejamento bem feito. E o Reinaldo tem esse perfil, ele gosta de gerir, gerir de forma certa, e fazer as coisas de acordo com o que é possível e dentro de um controle rigoroso, sem enganar. É como ele diz, é necessário tomar algumas medidas que não agradem alguns setores, mas que, lá pra frente, darão resultado muito melhor.”

FCG – Suas considerações finais?

AS – “Estou animado em colocar meu nome à disposição do meu partido e do arco de aliança para estas eleições. Em 2014, tivemos um resultado excelente, onde fizemos uma campanha para deputado estadual com pouquíssimos recursos. Quem entende de política sabe que o resultado que obtivemos nas urnas – oito mil setecentos e dezenove votos -, sem dinheiro seria praticamente inalcançável. Mas conseguimos, provando que é possível fazer política diferente, uma campanha diferente. Por que se eu prego que lá dentro (da Câmara Municipal) eu pretendo fazer um trabalho diferente do que vem sendo feito, minha campanha tem que condizer com aquilo que prego. Então, a nossa campanha hoje é formada, em sua maioria, por voluntários, por pessoas que querem ajudar, acreditam nesse sonho, e está muito bonito de ver como as pessoas estão vestindo a camisa e divulgando o nosso projeto. Um projeto que foca ser possível mudar, que é possível colocar pessoas lá dentro que tem competência, que querem largar sua zona de conforto, de terem sua profissão para atuarem como político. É o que eu falo: eu tenho consciência de que aquele cargo é transitório, provisório. O grande problema da política é que a maioria das pessoas quando entra na vida pública pensa só no dinheiro, no salário e nas regalias que o político tem. E a essência não é essa. Primeiro, não é profissão; não existe no rol de profissões o cargo de político. Eu, por exemplo, nunca vou deixar de ser policial federal. E uma coisa que me conforta muito e me dá segurança para fazer meu trabalho imparcial é saber que no dia que não der mais certo a política para mim, o caminho que quero seguir correto, vou voltar a ser policial federal.”