Deputado Cabo Almi: “Hoje trabalhamos com transparência, acabou o caciquismo”

Por em julho 18, 2016 7:31 pm , Categorias:

O deputado Cabo Almi (José Almi Pereira Moura nasceu no município de Jardim Olinda (PR), em 17 de dezembro de 1962, filho do lavrador Finelon Pereira de Moura e da dona de casa Creuza Vieira da Silva Moura) cumpre seu segundo mandato e tem se notabilizado pela coerência, no equilíbrio nas deliberações e na disputa no campo partidário, se tornando uma das principais lideranças do Partido dos Trabalhadores.

Em 1963, a sua família mudou-se para o distrito de Lagoa Bonita, em Deodápolis, para o cultivo de lavoura. Em fevereiro de 1982, Almi veio para Campo Grande e trabalhou como cobrador de ônibus, foi empacotador e promotor de vendas de indústria de alimentos, e formou-se como torneiro mecânico pelo Senai. Em outubro de 1983, prestou concurso para soldado da Polícia Militar.

Em 1987, casou-se com Irene Carolina de Oliveira, com quem teve três filhos: Flávio, Fabrícia e Monique. Em 1988, foi aprovado no concurso para cabo da PM. No início da década de 90 ajudou a fundar o Grêmio 8 de Abril (associação de cabos e soldados da PM), do qual foi presidente por seis anos.

Em 1996, foi eleito vereador em Campo Grande, pelo PT, sendo reeleito por mais três mandatos, até assumir a vaga de deputado estadual, em 2011. Há 20 anos no PT, Cabo Almi ocupa a segunda secretaria da Assembleia Legislativa. Nesta entrevista exclusiva à FOLHA DE CAMPO GRANDE, ele fala do atual cenário político nacional, estadual e municipal e defende uma ampla frente popular oposicionista nesta eleição na Capital.

 

FOLHA DE CAMPO GRANDE – De origem humilde, como a política partidária o motivou e o levou a se tornar uma das principais lideranças do PT?

Cabo Almi – Primeiro, o forte trabalho que fizemos como presidente de uma entidade na Polícia Militar, o Grêmio 8 de Abril, dos cabos e soldados. Enfrentamos uma crise financeiro no governo estadual, com quatro folhas salariais atrasadas do servidor público, em especial dos policiais militares, e me deram a oportunidade de presidir a entidade e ser o principal fiador daqueles servidores para que fizessem suas compras, como a cesta básica, o combustível, o remédio na farmácia, tudo que precisavam para sobreviverem naquele momento. Eu fui o fiador desses trabalhadores, para que eles comprassem a prazo no comércio, me responsabilizando pela dívida até que saísse o pagamento. Esse trabalho cruzou a crise de 1990 até 94 e eu permaneci na presidência até 96 de uma entidade que começou num momento de crise e foi crescendo ao longo desses anos. E, no final dos seis anos, os próprios colegas de farda já insistiam para que eu saísse candidato a vereador. E naquele momento também surgiram os partidos, que, vendo meu nome nas pesquisas, passaram a me cortejar. Pelo PMN, pelo André (Puccinelli), pelo PSDB do Roberto Orro e pelo PT, de Vander Loubet, Alex, desse grupo do Mariano (Cabreira). Então, numa conversa ao lado um fogão, onde minha esposa fazia nosso almoço, eu perguntei para ela qual partido deveria escolher. Ela me disse: ‘qualquer um’. Eu argumentei que viemos da roça e o nosso partido deveria ser o PT. Naquele momento, eu decidi que sairia candidato pelo Partido dos Trabalhadores e, para minha surpresa, fui eleito com quase três mil votos

FCG – Como o senhor analisa o PT da sua militância aos dias de hoje?

Almi – Olha, o PT surgiu de lutas de classe, defendendo os direitos trabalhistas, o índio, o negro, o assentado, os movimentos comunitários, movimento LGBT. Surgiu da luta das minorias, e estas minorias deram ao PT o poder através de um operário, que é o Lula, para chegar à presidência da República, fazer dois mandatos e fazer a sua sucessora e ser afastado no momento de hoje. Quer dizer, o PT foi perdendo a sua identidade também com aqueles que o impulsionaram até onde chegou. Hoje o PT precisa reavaliar sua postura, recomeçar suas lutas, rever os erros, acertar o rumo, o prumo, e seguir em frente. Não tem outro partido com a proposta melhor que a do PT. A nossa proposta é muito boa, o plano de ação de incluir as pessoas, do Vale Renda, do Segurança Alimentar, do Prouni, do Bolsa Família, do Minha Casa, Minha Vida, do combate à inflação, do fomento ao crescimento, ao desenvolvimento. Contudo, chegou a um momento que figuras foram se apoderando do nosso partido, desse partido que virou poder; o PT foi deixando para traz as raízes, suas marcas e a sua militância, e chegou a esse cenário difícil que estamos vivendo…

FCG – A militância era o oxigênio…

Almi – Foi… E continua sendo, só que em determinado momento ela foi deixada de lado, esquecida, e substituída por pessoas oportunistas, espertas; por pessoas que aprenderam a ocupar espaços de quem ocupa o poder e chega ao poder. Infelizmente, foi isso. Veja nesse momento agora da janela, quantos deputados nós perdemos. Nesse momento das eleições municipais, quantos vereadores saíram; o partido ficou minguando, diminuindo. Mas também ficou no PT, de fato, quem é PT. Quem era oportunista, pegou uma carona, desceu do barco e foi embora.

FCG – Na sua avaliação, a crise do Brasil é mais econômica ou política?

Almi – Ela é fortemente política. Primeiro, o resultado das urnas. Quando a Dilma (Rousseff) ganha o segundo mandato com uma diferença mínima, quando ela empata o jogo para se reeleger com a máquina na mão, depois da gente ter governado oito anos com o Lula e mais quatro com ela. Quer dizer, estagnou. O nosso projeto permitiu que os próprios parceiros se desarcoçoasse e apiasse do barco. Então, a crise, de imediato, ela é política, e num segundo momento, eu vejo que é uma crise de credibilidade da classe política também. Quando, num primeiro momento, a sociedade absorveu o Mensalão, e ai vem a Lava Jato na sequencia, ficou muito difícil a sociedade continuar dando um voto de credibilidade à classe política, principalmente para quem está no poder. Não havia mais desse projeto nosso continuar da forma que estava. O povo estava sofrendo muito, os políticos, as instituições sofrendo muito. Pode observar que muito pouco foi feito com o afastamento da Dilma, com a chegada do Temer, até agora. Mas só o fato de dar um voto de confiança para cessar tudo aquilo que vinha acontecendo, você percebe que já houve uma calmaria, já melhorou um pouco. Os números (da economia) não mudaram muito, o desemprego não caiu, contudo a população queria, a qualquer custo, que mudasse. Nem que não mudasse para melhor, por conta da crise política que se estabeleceu no Brasil.

FCG – Deputado, com relação as eleições na Capital, seu partido tem alguns nomes, como os deputados federais Zeca do PT e Vander Loubet, seu nome também é ventilado. O PT vai lança candidato, qual é a tendência do partido?

Almi – Hoje nós temos um nome colocado que é do Alex (do PT, vereador) para prefeito e está sendo feito um plano de governo. Mas, há um entendimento das principais lideranças do partido, que o melhor seria nos embarcarmos numa Frente Brasil Popular reunindo os partidos que votaram contra o afastamento da presidente Dilma. O PC do B, o PDT, o próprio PV, o PT… E nessa frente, até o prazo para as convenções, em 5 de agosto, aquele nome que estivesse em melhores condições na pesquisa seria o nosso candidato. Não tem como hoje o PDT, PV e o PT caminharem sozinhos. Eles todos, juntos, fariam essa frente a uma disputa que está colocada aí com a Rose (Modesto), o Marquinhos (Trad) e o próprio Bernal. Hoje sabemos que esta é uma eleição de dois turnos. Digamos, nesse arco de aliança, com a candidatura do Alex ou do Dagoberto (Nogueira, PDT), com um plano de governo arrumado, poderíamos até ir para um segundo turno. Estes três candidatos que falei (Rose, Marquinhos e Bernal) vão estar numa disputa muito acirrada. Marquinhos e Bernal pontuando, a Rose é governo, está juntando, provavelmente, a maioria dos partidos. Na realidade, nós precisamos não ir sozinhos nessa disputa, até para fazer vereador temos que disputar dentro de um arco, uma frente.

FCG – Agora, pelo desenho que esta aí, pela leitura que o senhor faz, pela pulverização, pelo número de candidatos, é humanamente impossível decidir essa eleição no primeiro turno.

Almi – Com as candidaturas que estão sendo colocadas, não tem jeito, essa eleição terá segundo turno. O Marquinhos continua bem; o Bernal, está na prefeitura, vai usar todos os discursos falando que foi injustiçado, não o deixaram fazer, etc e etc, e vai ser bem pontuado; e a Rose, vem mordendo, vem chegando, por conta do acumulo de forças colocado na sua candidatura.

FCG – Integrar a mesa da Assembleia é o reconhecimento da sua trajetória política?

Almi – Olha, eu vejo assim com muita humildade. Eu cheguei deputado nessa Casa e no meu primeiro mandato tornei-me líder da bancada do PT. Eu acho que não é nem o reconhecimento e, sim, a resistência de um homem que vem lutando, vem trabalhando… Eu entrei na Câmara (de Campo Grande), em 1996, e nunca sai do mandato até chegar a Assembleia. E chegando à Assembleia, assumi a liderança, e me reelegi com todos os problemas e dificuldades como o mais bem votado do PT. Isso não é pouco para um mandato popular, periférico, um mandato que não tem uma estrutura financeira… Nosso mandato, do sob de vista financeiro, é muito fraco, é o mandato do trabalho de servir as pessoas, de dialogar, de interagir com a sociedade, que fez com a gente resistisse e chegasse ao segundo mandato. E aí, quando eu coloquei meu nome para ser o segundo secretário (da mesa diretora), recebi também o apoio da Executiva do meu partido. Por que recebi o apoio da Executiva? Pelo cumprimento das obrigações, dos meus deveres com o meu partido também. Estou há 20 anos no PT e sempre cumpri rigorosamente com o estatuto e o regimento do meu partido. Sempre, sempre nas decisões  fundamentais, prioritárias e importantes fui lá no partido buscar o encaminhamento que deveria tomar. E quando eu precisei, contei de novo com o partido.

FCG – Uma coisa que observamos, o senhor transita bem com lideranças de outros partidos e colegas seus. O senhor é um político versátil, dialoga com todas as tendências ideológicas?

Almi – Esse é o meu perfil. Quando eu cheguei no PT, o PT já tinha seus grupos formados, suas tendências, suas correntes, primeira coisa. E eu cheguei pelo campo majoritário e me elegi, mas eu também não fiquei refém do campo majoritário. Quer dizer, eu sou uma liderança partidária do meu partido, mas meus votos vêm muito dos segmentos da sociedade, da dona de casa, da doméstica, do carpinteiro, do pedreiro, do mestre de obra, do pequeno empresário, do movimento comunitário, do povão. Eu tenho compromisso com meu partido, mas meus votos é meio desvinculado dessa questão ideológica; é o voto pessoal, é o voto muito na pessoa do Cabo Almi.

FCG – Qual análise o senhor faz dessa avalanche de denuncias de corrupção em nosso Estado?

Almi – Não só no Estado, mas no Brasil. Com as mudanças de comportamento da própria sociedade, com a criação e aperfeiçoamento do Ministério Público, uma Polícia Federal mais forte, um CGU (Controladoria-Geral da União) mais forte, com a Lei da Transparência, com essa questão de poder gravar tudo… A forma de fazer política mudou, e se os políticos não mudarem a tendência é sofrerem muito. Hoje não se aceita mais a política do passado dos coronéis, do cabresto, onde você fazia de tudo errado e ninguém sabia de nada, ninguém tinha interesse em descobrir, de apurar. Hoje é diferente, meu amigo, é diferente. Não tem nada escondido entre o céu e a terra. As informações chegam com muita facilidade nas mãos de quem, se quiser, apura. Vejamos agora a Receita Federal cruzando os dados patrimoniais. Não precisa ser político, você vai cair na malha fina. O político que vive de um salário, se ele adquire um patrimônio fora do padrão e em tempo curto, então está comprovado que tem algo de errado. Aqui no Estado as pessoas acham que continuava reinando a lei do 44, onde se manipulava resultados, se comprava, se ameaçava na bala. Quer dizer, a casa caiu. Quem quiser permanecer na política e longe da Justiça tem que trilhar outros caminhos, vai ter que ter limite até onde pode chegar. Porque a Justiça não vai perdoar, e isso é bom para a sociedade. Vejo que o Brasil pode e vai viver novos tempos, como Mato Grosso do Sul também. Você percebe que já houve mudanças de comportamento de muita coisa, e a tendência é melhorar. Este Estado é muito forte, um Estado progressista, um agronegócio muito forte, enfim, um empresariado arrojado. Não tem como um Estado desse viver uma crise financeira, só depende de ajustes, combater a corrupção, cada um vivendo do suor do seu rosto, do seu salário, do que está escrito na lei.

FCG – Que contribuição a Assembleia vem dando para recuperar a credibilidade da gestão pública?

Almi – Olha, a Casa mudou bastante, dá para perceber as mudanças significativas. Temos hoje o Portal da Transparência, você percebe que hoje os deputados tem o compromisso de comparecer todos os dias nas sessões, não ocorre mais sessão suspensa por falta de quorum. Estamos devolvendo dinheiro todos os meses para o governo do Estado, isso é fato. A Assembleia está evoluindo e contribuindo, acabou aquele caciquismo aqui dentro. Hoje os deputados são iguais, não tem mais aquele todo poderoso, o reizinho, como antes. Isso acabou, a gente dialoga de igual para igual Eu acredito que a tendência é melhorar cada vez mais. A próxima mesa diretora tem o compromisso de escolher o deputado mais ético e não aquele fulano porque ele é governo. Tem que ser aquele que vai fazer com que a Casa funcione, vai garantir o funcionamento das comissões, a manutenção da transparência, de ter o pé no chão com os poderes, com a mídia. Os poderes são independentes, mas precisam se falar, dialogarem. A mídia faz o papel dela, mas é preciso um diálogo franco. Então, acredito nessa postura dessa Casa de Leis.

FCG – Voltado à questão das eleições, que avaliação o senhor faz da administração de Alcides Bernal?

Almi – Olha, uma administração isolada, uma administração que, por mais que tenha erros ocorridos em seu afastamento, o Bernal também não contribuiu para que as coisas fossem diferentes. Não procurou ter um diálogo com a Câmara de Vereadores. Não precisa ser uma Câmara subserviente e ele ditador. É o que acabei de falar: os poderes têm que interagir, porque a sociedade não pode pagar o preço. Por conta disso, o prefeito perdeu alguns recursos, alguns projetos importantes deixaram de ser votados e eu vejo que Campo Grande, infelizmente, sofre. Mesmo nas gestões passadas, que teriam cometido desvio de recursos ou outros ilícitos, Campo Grande era bem melhor, bem mais apresentada para quem entrava na cidade. A Capital perdeu o brilho, você não vê uma obra nova. Que bairro foi asfaltado, a não ser com recurso federal? As iluminárias, que é coisa balela, não estão sendo trocadas, mesmo tendo recursos. Os buracos tomam conta da cidade. Os Ceinfs abandonados e um número grande de crianças fora das creches, com as mães precisando trabalhar. Eu acho que por mais erros que tenham sido cometidos, que de certa forma atrapalharam sua administração, ele, Bernal, se atrapalhou por si e perdeu a oportunidade de fazer um grande mandato e se reeleger hoje com tranquilidade e, futuramente, chegar ao governo do Estado, ao Senado. Fez uma gestão do eu sozinho, do individualismo, do egoísmo, da desconfiança, sempre a vítima, de quem está sendo sempre sacaneado, trapaceado. Isso não leva a nenhum lugar também.  Se você é um líder, está à frente de uma situação, você tem que liderar, comandar, e quem está sob seu comando, deve estar satisfeito, obedecer e contribuir. Não existe um líder do eu sozinho.