“Sem verdade não há mudança”

Por em setembro 26, 2016 1:54 pm , Categorias:

* Por Geraldo Silva

 

A velha e condenável prática de obter vantagens mediante demagogia e tapeação da sociedade constitui a fonte de todas as mazelas que afetaram as relações entre os campograndenses e seus representantes de forma geral. A afirmação é de Josué Ramalho Sulzer, 42, candidato a vereador pelo PPS, ao considerar que a política não será instrumento eficiente de avanços enquanto o sistema for conduzido por políticos que não são fiéis à verdade de seus compromissos, ao interesse público e ao desejo de quem diz representar.
Formado em Direito e Serviços Sociais, funcionário público de carreira, procurador autárquico há 12 anos, trabalhou na Agepen (Agência do Sistema Penitenciário), está lotado por concurso público no Detran-MS, com experiência na assessoria da Secretaria Nacional Executiva do Ministério da Integração Nacional e na Promotoria da Infância e Juventude de Campo Grande. Josué leva nas veias a vocação para a política. Sua mãe, Maria Emília, foi vereadora; seu pai, Alfredo Sulzer, é antigo e respeitado militante do PMDB e atuante nas lutas democráticas e populares.
Nesta entrevista, Josué Sulzer fala sobre as razões que o levaram a disputar um lugar na Câmara de Vereadores. “Campo Grande precisa mudar. Quero fazer parte desta mudança. Os cidadãos e cidadãs exigem sinceridade e fidelidade aos compromissos e à verdade. Quero ser a referência de novas atitudes para nossa comunidade”, afirma.

FOLHA DE CAMPO GRANDE- Sua mãe foi vereadora e seu pai é histórico militante do PMDB. A política está no seu DNA. Foi esse o fator fundamental que o motivou a ser candidato?
JOSUÉ SULZER- Acredito que o ambiente familiar influenciou e muito a minha escolha em participar do processo político, me candidatando pela primeira vez a um cargo eletivo de vereador. Preciso dizer que convivi durante toda a minha vida com questões do cotidiano político, participação popular, movimentos sociais, eleições livres e diretas, não só com direito de escolha, mas como exercício democrático de todo cidadão. É evidente que minha opção aconteceu também em virtude do meu interesse, da minha vontade de participar, da minha formação acadêmica e do meu envolvimento com o dia a dia da cidade. Tem um fato que sempre gosto de lembrar: meus irmãos e eu, quando pequenos, fizemos um acordo com nossos pais para que não falassem sobre política na hora das refeições, tamanho era o envolvimento deles nas questões que vivenciavam à época. O assunto estava presente no dia a dia. Tanto no meio familiar, como com os amigos. Dos quatro irmãos, apenas eu optei por esse caminho. O momento político que vivemos no Brasil e também aqui na nossa cidade me revela que o momento é este. Quero ser vereador em Campo Grande.

FCG- O Brasil vive hoje o período de maior questionamento à falta de ética e os políticos, de modo geral, acabam sendo afetados até com julgamentos generalizados. Como é que o senhor pretende se diferenciar?
JS- É possível identificar pessoas que atuam no campo político que se mantém fiéis a princípios éticos e morais. A estrutura moral faz parte de nossa vida e nos indica qual o caminho e atitude que devemos ter na nossa prática pessoal, profissional e política. Sei que é possível ter uma conduta política mantendo valores e exercendo um trabalho com seriedade e competência. Tenho como exemplos meus pais, que exerceram diversas funções públicas e são pessoas que são respeitadas pela sociedade. A minha conduta como vereador, e eu trabalho para que isso aconteça, será de acordo com os princípios que moldaram minha formação moral e que nortearam minha conduta até agora. Está provado que a falta de valores morais não afeta só a classe política, embora ela padeça mais por estar mais exposta à mídia. A sociedade precisa fazer a sua parte, fazer a faxina e o momento preciso é agora. Escolher pelo voto quem deve ser o seu representante. Estabelecer melhores critérios de escolha e abolir práticas políticas ruins, como a compra de votos, favores e etc, que viciam e corrompem a relação do político com a sociedade.

FCG- Um de seus compromissos é o de querer abolir todas as antigas práticas ilícitas. Por que é que o senhor se compromete “É possível ter uma conduta política mantendo valores e exercendo um trabalho com seriedade e competência”com um resultado dessa natureza sabendo que não depende só de si e que o controle do jogo político ainda está nas mãos de quem lucra com tais práticas?
JS- A população está atenta ao dia a dia dos acontecimentos políticos. Basta ver a relação do público quando se depara com algum político envolvido com a Lava Jato. Não tenho dúvidas de que o Brasil será nos próximos anos um país diferente no que diz respeito às práticas políticas e responsabilidade com o dinheiro público. O povo assim o quer, assim exige. Basta lembrar as palavras de ordem manifestadas nas grandes concentrações de brasileiros ocorridas nos dois últimos anos. O político que não se alinhar com esses novos tempos será alijado do processo, será preso. Já vimos que é possível colocar os “figurões” na cadeia, fazê-los cumprir sentença, devolver o fruto dos roubos. Certamente que devemos continuar atentos, para que não haja retrocesso. Devemos avançar, explorar as liberdades democráticas para acessar todos os meios disponíveis para denunciar a má política, a política obscura, rasteira, aquela que engana a população. Pretendo exigir o cumprimento da lei, cobrando transparência e responsabilidade com as informações. Acredito que uma das formas de oxigenar o espaço político será com a presença e a voz da população. Jovens, professores, profissionais liberais, trabalhadores, aposentados, homens e mulheres, que juntos com os que detém mandato possam pensar em encontrar soluções duradouras para os problemas que a sociedade enfrenta.

 FCG- O vereador tem atribuições institucionais especificas, porém a de fiscalizar o Executivo é sempre afetada pelos interesses políticos ou partidários dos fiscais. Como enfrentar e quebrar esse paradigma, dentro de um contexto essencialmente corporativo?
JS- Na minha opinião, a principal atribuição do vereador é zelar o orçamento do município. É a aplicação do orçamento que garante a execução dos serviços, obras, pagamento dos servidores, enfim, todos os investimentos necessários para atender todas as demandas da população. Ou seja, qualidade e rapidez no atendimento à população. Esta é a minha mais importante bandeira de trabalho, pois quero, como vereador, fiscalizar e controlar as contas, gastos públicos, evitando desta forma desvios e sua má aplicação. Fiscalizar os contratos das empresas que prestam serviço para a Prefeitura, desde o edital até a prestação de contas. Entendo que se o vereador tiver essa conduta, estudando os contratos, se dedicando a fazer o seu dever de fiscalizar, haverá com certeza recursos para atender as políticas públicas: saúde com qualidade, mais médicos, remédios nos postos de saúde, assim deve ser feito com as demais políticas públicas. É claro que uma boa gestão administrativa faz a grande diferença.

FCG- Quais os acertos e os erros que eventualmente foram cometidos pela Câmara Municipal na crise de relacionamento que impactou no contexto político-administrativo e trouxe graves prejuízos ao município?
JS- Considero que basicamente o que aconteceu e acontece é a falta de diálogo mais franco entre os poderes envolvidos, Executivo e Legislativo, que provocou a instabilidade política, trazendo sérios problemas para a nossa cidade. No ambiente político o diálogo é fundamental e é sempre possível de se realizar, sobretudo quando os interesses coletivos são colocados em primeiro lugar e devem se sobrepor aos interesses individuais. Como representante político, devo considerar esta questão como uma das mais importantes no meu dia a dia. As discussões e decisões resultantes desse diálogo devem levar em conta não apenas o momento presente, mas também o futuro da cidade que idealizamos.

entrevista-sulzer-olhinho-2-foto-geraldo-silva FCG- Por que o vereador precisa apresentar-se aos eleitores como se fosse um “tocador de obras” em vez de mostrar como fiscalizará o Executivo, como tratará das leis e como fortalecerá a presença popular nas decisões?
JS- Acredito que seja por desconhecimento de suas atribuições, pouco conhecimento sobre as competências de cada um dos poderes, tanto de parte dos eleitores como também dos políticos. Veja, por exemplo, as propostas que são apresentadas pelos candidatos a vereador como asfalto, construção de escolas, postos de saúde, etc… Competências exclusivas do poder Executivo. A população que também desconhece as funções específicas de cada poder acaba acreditando e votando em quem promete mais. A execução de serviços que são pleiteados pela população e que o vereador promete fazer confunde a opinião do eleitor. Uma outra questão a destacar é que a execução e serviços atendendo a demandas sociais tem maior visibilidade pela população e muitas vezes o Legislativo se apropria de uma função que não é sua, pelo fato de o poder estabelecer uma interação mais próxima com o eleitor. Quando na realidade ele deve sempre exercer com eficiência a discussão e aprovação do orçamento para a execução dos serviços. Daí seu papel de fiscalização do orçamento.

FCG- O que identifica Josué Ramalho Sulzer em relação ao perfil e à história política de seus pais, que viveram e enfrentaram duras lutas pelas liberdades democráticas?
JS- Meus pais, desde a época estudantil, nas décadas de 60 e 70, foram e continuam sendo militantes políticos ativos. Defenderam as liberdades democráticas e o retorno do Brasil à normalidade política. Tiveram voz ativa nas lutas populares, tais como: Movimento de Anistia, Comitê de Defesa do Pantanal, Diretas Já, Presidencialismo, etc. A política sempre esteve presente no cotidiano de nossa família e meus pais, com suas atitudes de determinação e coragem, despertaram em nós a resistência à toda forma de autoritarismo e de conduta antidemocrática. Em defesa de seus ideais e sempre ao lado daqueles que acreditaram na liberdade e na justiça, meus pais nos ensinaram que sempre é possível dar a nossa contribuição para construir uma sociedade melhor para todos. Mas tudo isso teve um custo. Foram perseguidos, perderam seus empregos, mas não desistiram da luta. Eu nasci e cresci vivenciando toda essa dinâmica na minha família. O meu caráter foi construído dentro deste quadro que apresento a vocês. Defendo a democracia, a justiça, as oportunidades iguais para todos, homens e mulheres, que juntos dão a dimensão adequada na construção da democracia. A coragem me impulsiona a participar efetivamente do processo de mudança que a sociedade deseja. É fácil perceber esse desejo, seja andando pelas ruas da cidade, observando as carências dos serviços, ouvindo as pessoas, vivendo momentos de tantas dificuldades políticas e econômicas. Quero enfrentar esse momento não só como um cidadão comum, mas quero ser também o seu representante na Câmara Municipal.

FCG- Em síntese, quais os principais problemas em Campo Grande e o que pode concretamente, ser feito para solucioná-los?
JS- Campo Grande tem algumas conquistas que a população está acostumada, pois fazem parte do nosso cotidiano há muito tempo. É uma cidade limpa; não tem crianças perambulando pelas ruas como pedintes ou cometendo infrações; a quantidade de adultos esmolando nas esquinas foi reduzida consideravelmente; as favelas foram extintas; os alunos da rede pública recebem anualmente os uniformes e o material escolar gratuitamente; o transporte escolar é gratuito; o trânsito flui facilmente; além de outros. Ultimamente, alguns desses avanços urbanos que se refletem na qualidade de vida de nossa população estão se deteriorando rapidamente. Os recursos públicos estão escasseando cada vez mais com a redução da atividade econômica do país. Portanto, faz-se necessário maior atenção do poder Legislativo à obediência da Lei de Responsabilidade Fiscal e à correta destinação do dinheiro público. Os tempos são de rigor administrativo e competência. A Câmara dos vereadores deve estar atenta ao seu papel fiscalizador, ao mesmo tempo em que escuta as aspirações da população e acompanha o desempenho da gestão municipal.