Inflação reassume o cotidiano e a fome é fratura exposta no País

Famílias procuram ossos no lixão para o almoço: cena já é comum

A disparada dos preços continua dominando a cena social e econômica do Brasil. Um velho e temido personagem ressurge no cotidiano e volta a apavorar a vida dos brasileiros, notadamente das populações mais vulneráveis: o dragão inflacionário. E com ele se instalam as necessidades mais elementares ao ser humano, principalmente a fome e as privações de saúde, transporte, habitação e vestuário.

Considerada a prévia da inflação oficial do país, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-15) foi de 1,20% em outubro. Esta é a maior variação para um mês de outubro desde 1995 (1,34%). Os dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Neste ano, a meta do Banco Central para a inflação é de 3,75%.

Segundo o IBGE, oito dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados apresentaram alta. Estas foram as variações em outubro: Transportes: 2,06%; Habitação: 1,87%; Alimentação e bebidas: 1,38%; Vestuário: 1,32%; Despesas pessoais: 0,77%; Artigos de residência: 0,53%; Comunicação: 0,34%; Educação: 0,09%; Saúde e cuidados pessoais: -0,01%.

OSSOS À MESA

O preço dos alimentos puxam a fila da alta do custo de vida. A fome e o desemprego têm levado famílias de todas as regiões do País à procura de opções nada convencionais para suas refeições, como os ossos de boi, as carcaças de frango e até restos de comida jogados no lixo. O preço alto da carne atinge os cortes considerados de segunda e terceira.

A carcaça temperada, pé de galinha, pescoço e outras partes de boi, vaca e porco estão sendo mais procurados e ficaram mais caros. Em São Paulo, o preço do pescoço de frango cresceu 15,79% no último mês, na comparação dos 12 meses, de acordo com a consultoria Safras e Mercados. A carcaça temperada de frango cresceu 45%, o dorso, 60%. Já entre os suínos, a alta mais acentuada foi no espinhaço, com 23,91%, que é a “coluna” do porco, e na orelha, 20%.

“Nas lojas de São Paulo, Minas, Mato Grosso, Goiás, Espírito Santo, Rio de Janeiro, todos confirmaram que essas carnes foram mais vendidas por conta da crise”, informa o cofundador da Rede Mais Açougues, Diego Moscato. O pé de frango está na liderança, com um aumento de 26% no consumo. Os ossos, geralmente descartados pelos frigoríficos e açougues, estão sendo procurados cada vez mais por pessoas mais pobres.

O preço elevado da carne e o consumo de ossos como única opção para pessoas de baixa renda não são novidade. Segundo Rodrigo Afonso, diretor-executivo da ONG Ação Cidadania, a conta é simples: “A média do Bolsa Família é R$ 170,00. Como comprar a comida da família, pagar aluguel, roupa, transporte? Isso já era impossível antes, com as defasagens do salário, agora piorou. Os aumentos tiram dessas pessoas a possibilidade de consumir produtos como arroz, feijão e carne”, exemplifica.

Compartilhe: