Geraldo Silva

EDITORIAL

Iniciativa privada pelo público

Duas necessidades são indiscutíveis para resistir aos diferentes impactos da pandemia do Covid-19: o isolamento social, um recurso de prevenção em massa da população com a suspensão de atividades externas; e a preservação da economia dentro dos limites possíveis, que são mínimos. Não há como atender simultaneamente estas duas necessidades – uma, a proteção da saúde humana, se sobrepõe.

Para garantir a primeira necessidade, há uma obrigação jurídica e constitucional que faz do poder público o responsável pela assistência à sociedade em seus direitos fundamentais de subsistência e de sobrevivência. O governo federal instituiu o auxílio de emergência de R$ 600,00 para desempregados e famílias que ficaram sem outros meios de renda. Os governos estaduais e prefeituras complementam a rede de apoio e adotam diversos mecanismos de socorro a quem precisa.

Mas não é suficiente. Quanto mais se arrasta a pandemia, quanto mais demora a descoberta de sua cura e quanto mais aumentam as curvas de contaminações e de óbitos, mais se elevam os gastos com a estrutura de atendimento da saúde e, assim, as reservas financeiras do poder público se exaurem pouco a pouco. Com isso, entra em cena, com sua mão providencial, a iniciativa privada. E ela não está faltando, apesar das exceções que constam de qualquer regra.

No Brasil, o empresariado não fugiu desta responsabilidade. Um exemplo de sua importância efetiva na mitigação dos problemas gerados pela pandemia pode ser aferido em Mato Grosso do Sul. Tem sido das mais produtivas a rede de parcerias que o Estado costurou com empreendimentos privados de vários segmentos da economia. De cestas básicas a equipamentos de proteção individual (EPIs), as doações estão beneficiando as populações dos 79 municípios, especialmente as mais vulneráveis.

Às ações emergenciais de socorro as mesmas parcerias acrescentam iniciativas de fomento ao fôlego da economia. Há alguns dias, por exemplo, durante a Semana do Leite, o secretário Jaime Verruck, da Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar, lançou o Pró-Orgânico. Trata-se do Plano de Agroecologia, Produção Orgânica e Extrativismo Sustentável, criado com o objetivo de desenvolver as diferentes cadeias produtivas agroecológicas e orgânicas e fomentar o extrativismo sustentável.

Já são mais de duas dezenas de ações articuladas pela secretaria de Verruck com empresas de grande, médio e pequeno porte para socorrer as comunidades mais afetadas pela crise. Assim como em Mato Grosso do Sul, nos demais estados a iniciativa privada é parceira ou apresenta-se espontaneamente em ações de suporte a famílias que esperam por renda, alimentação, roupa, remédio, assistência em saúde, máscaras, transporte e outros produtos e serviços aos quais não têm acesso por causa da pandemia.

Em Mato Grosso, a mineradora Nexa dá mais um exemplo: só ela se encarregou de realizar em Aripuanã, a 1,2 mil km de Cuiabá, testes do Covid-19 em 91 pessoas para cada grupo de mil, um número bem superior à média nacional. Com isso, Aripuanã deve ficar entre os territórios com maior percentual de testagem no Brasil.

Outras incontáveis iniciativas de responsabilidade humana e social multiplicam-se no País. O Movimento Soma é uma delas. Com mais de 140 projetos e mobilizando até agora mais de R$ 661 milhões em doações, este é um projeto que reúne empresas de segmentos como os de consultoria jurídica, fiscal e trabalhista, comunicação, plataforma digital e aplicativos de serviços externos em cobrança de taxas. Com isso, quem está sem trabalho encontra alternativas, ainda que temporárias, de subsistência enquanto durar a crise.

Este é um momento em que as almas verdadeiramente movidas por sentimentos cristãos e princípios humanitários projetam como prioridade das prioridades o bem-estar, a segurança e a saúde do próximo, especialmente de quem não tem aonde escorar as suas esperanças.

Sem cooperação, a guerra contra o vírus pode não ter fim ou, pior, ter um fim desfavorável ao ser humano. Com a cooperação, como evidenciam os esforços do poder público e do empresariado consciente, a esperança ganha chamas ainda mais fortes e vitoriosas. Hoje, cooperar é mais do que nunca o verbo da moda. Porque traduz o verbo dos verbos: amar ao próximo como – ou mais que – a si mesmo.

Compartilhe: