Geraldo Silva

EDITORIAL

Quando as aparências enganam

Os ditados populares refletem a experiência e o olhar calejado de quem viu, ouviu e passou por tantas experiências, acumulando conhecimentos e capacitando-se para a tarefa de retransmitir ao mundo aquilo que aprendeu. Assim, todo ditado popular exige atenção redobrada, como se fosse uma espécie de faculdade sem diploma, mas tão provedora de conhecimentos e sabedoria como se fosse uma instituição de nível superior.

Um dos ditados mais recorrentes no dia-a-dia dos brasileiros adverte: as aparências enganam. Obviamente, não se pode levar ao pé da letra este ensinamento, pois isto seria generalizar e colocar todo mundo de boa aparência num único saco. Mas a advertência tem fundamento e sugere que se tome cuidado quando estiver diante de um conteúdo sedutor, como pontua aquele outro ditado: “por fora bela viola, por dentro pão bolorento”.

Foi o que aconteceu em Maracaju. Durante oito anos, em dois mandatos o prefeito Maurílio Azambuja representava para a maioria da população a figura da boa aparência ou da bela viola. Os eleitores confiaram e depositaram esta confiança na beleza da viola, sem que se atrevessem a conhecer o conteúdo. Depois desses oito anos, o eleitorado, certamente já desconfiado da escolha, até pelas decepções com o gestor escolhido, decidiu mudar o curso e procurou outro modelo, analisando por fora e por dentro para não ficar só na aparência.

A população, que havia sido ludibriada em sua boa-fé naqueles oito anos, aprendeu com a decepção e adotou critério renovador para fazer sua escolha. O acerto dessa guinada foi confirmado esta semana, e de forma inquestionável: o ex-prefeito que era a “bela viola” e o ex-assessor que queria transformar em seu herdeiro político foram pilhados pela Polícia na operação que descobriu um milionário esquema de desvio de verbas da prefeitura.

Enquanto várias demandas dos maracajuenses eram deixadas de lado ou despejadas numa lata de lixo qualquer da administração de Maurílio e seus cabeças, o dinheiro sagrado e sacrificado dos contribuintes era drenado nos subterrâneos da gestão para os cofres, bolsos e contas bancárias de meia dúzia de assaltantes, de acordo com o que apurou a Polícia. Ainda está sendo levantado o montante real dos prejuízos financeiros, sociais e gerenciais que o município sofreu nesses oito anos – mas já se sabe que foram de muitos milhões de reais.

A gatunagem é igual, fica parda quando anoitece. Pois anoiteceu em Maracaju para o ex-prefeito e seu ex-homem-forte Lenilso Carvalho. Caíram do telhado. Em vez de gatos, eram gatunos. Em vez de bela viola, eram pães bolorentos.

Compartilhe: