Geraldo Silva

EDITORIAL

Um capitão à deriva e devaneios

Num dia, com o apoio dos fiéis seguidores, ele treta com Dória Jr. No outro, chama o senador Randolfe para tirar as suas diferenças no braço. Ora deprecia o Supremo Tribunal Federal, ora rebaixa congressistas adversários ou inimigos. Numa esquina ataca a imprensa, noutra destrata a Ciência. Deita-se, acorda e levanta-se de armas na mão, pronto para ganhar espaços nos seus cercadinhos apinhados de reféns. Adora polêmicas, distrai-se com elas, surfa na repercussão que causa.

E enquanto isso, a pandemia continua matando, produzindo doentes e congestionando as redes de internação hospitalar. A falta de vacinas impede que a imunização avance com uma velocidade capaz de neutralizar a marcha das contaminações. O País perdeu tempo. Quando a pandemia explodia no planeta, a grande maioria das nações – desenvolvidas ou não – procurava reservar ou tomar providências para garantir os imunizantes que ainda nem existiam.

Jair Bolsonaro, aquele que deveria ser o grande líder da resistência nacional ao vírus, vivia – e vive até hoje – entretido com o que dizem as redes sociais de seus áulicos e envolvido pelas armações com as quais pretende pavimentar o projeto de reeleição. De passagem, vale a pena observar que esse projeto fica a cada dia mais ameaçado, haja vista os índices seguidos de queda de aprovação e de popularidade do governo e do presidente.

Questiona-se muito a criação da CPI da Pandemia. Pode não ser a prioridade número zero neste momento. Contudo, as vozes que se multiplicam em sua defesa já extrapolaram os limites do oposicionismo político e ideológico, além de ascender também a um nível estratégico semelhante ao da prioridade maior que é socorrer a população acuada pela pandemia, tanto na garantia por mais vacinas para dar alcance máximo à imunização, como no reforço às medidas de isolamento social e comportamentos preventivos e protetivos.

A senadora Simone Tebet (MDB-MS), que não é comunista, muito menos esquerda e até abraça ideias conservadoras que estão na cartilha bolsonarista, publicou uma carta aberta em que defende mecanismos de cobrança e fiscalização das intervenções do governo em relação à pandemia. E afirma: “A CPI da Pandemia surge no horizonte do momento como um instrumento de pressão, para que o Governo aja com rapidez, coordenação e vontade”.

Os juristas mais respeitados pontuam, fora do arrazoado político e dentro unicamente do campo jurídico e institucional, que as comissões parlamentares de inquérito têm poderes de investigação próprios das autoridades judiciárias, nos termos do art. 58, parágrafo 3o da Constituição. Mas a CPI não seria sequer necessária em relação ao presidente, se ele ou o governo federal tivesse atuado de maneira inquestionável e clara na defesa da sociedade, se tivesse a humildade de recomendar ao povo as orientações da Ciência e da Medicina e nelas ter-se inspirado para implantar uma política nacional de enfrentamento da pandemia.

Bolsonaro fez o contrário. Segundo a cientista política Céli Pinto, professora emérita da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o mandatário tem na sua conta a responsabilidade pelo agravamento da doença no País. Ao analisar a conduta de Jair Bolsonaro, ela afirma: “O país foi jogado pelas autoridades federais no mais desumano desastre sanitário de sua história. O que está acontecendo é efeito direto de uma política genocida promovida pelo Presidente da República e sua corriola, assistida placidamente pelo Congresso Nacional e pelo Judiciário”.

Atchim!

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