A Maldição da Residência Hill: uma casa que engole vidas

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O LIVRO (leitura opcional)

Quando Eleanor Vance encontra pela primeira vez a mansão homônima no livro de 1959 de Shirley Jackson, A Maldição da Residência Hill (The Haunting of Hill House), ela parece consumi-la antes mesmo de Eleanor entrar. A casa é “vil”, ela pensa; “Está doente”. Ela paira sobre nós, “enorme e escura”, torcendo nosso estômago e esfriando o ar ao seu redor. Quando Eleanor está na varanda da Residência Hill, ela vê tudo “em volta dela com pressa”, envolvendo-nos, engolindo-nos inteiros.

Residência Hill é menos um lar e mais um ataque de pânico, uma névoa de ansiedade e pavor perturba o estado fisiológico das pessoas. Mas ansiedade não é novidade para Eleanor, uma mulher tímida de 32 anos que passou os últimos 11 anos cuidando de sua mãe inválida. Eleanor acha extremamente difícil falar com estranhos, e seus pensamentos negativos sobre si mesma permeiam o livro, que é contado quase inteiramente de sua perspectiva. Eleanor ficou sem raízes após a morte de sua mãe, e veio para Residência Hill durante o verão para ajudar o Dr. Montague, um investigador de fenômenos paranormais que acredita que a casa é mal-assombrada. À medida que o romance avança, é difícil discernir onde termina a escuridão da Residência Hill e onde começa a agitação pessoal de Eleanor.

A Maldição da Residência Hill é superlativo em muitos aspectos. É uma obra de ficção de terror – e Stephen King e Neil Gaiman concordam com isso. O romance é um modelo de como provocar um terror profundo sem nunca revelar um fantasma ou um monstro específico. Mas A Maldição é também uma investigação assustadoramente afiada da psique feminina, enraizada na vida protegida e internalizada de Eleanor e em sua mente cada vez mais fragmentada. Casas mal-assombradas são repletas de simbolismos: elas significam que as casas – lugares que deveriam ser santuários e abrigos – podem ser corrompidas. Eleanor tem sentimentos ambíguos sobre a Residência Hill e sobre comunidade versus solidão; o confinamento versus liberdade.

Shirley Jackson, a autora, que sofria de agorafobia e muitas vezes se sentia oprimida por seu papel como esposa e mãe, parece associar seu próprio relacionamento conturbado com o conceito de casa em sua história. A Maldição da Residência Hill é tão assustador que a ansiedade de Jackson satura suas palavras. O leitor permanece preso na mente de Eleanor enquanto ela se desenrola, sentindo seu desconforto, dúvida e terror.

A SÉRIE

Já na nova série da Netflix, adaptada do romance de Shirley Jackson, o medo pode ter como antídoto a lógica, se puder se tornar uma renúncia voluntária de padrões razoáveis. A série é mais um exame genérico do luto e do trauma. Seus 10 episódios são elegantes, comoventes e sinistros, repletos de fantasmas literais e metafóricos.

Na série criada por Mike Flanagan, Hugh Crain (Henry Thomas) é o patriarca de uma família que se muda para a Residência Hill durante os anos 1980, com a intenção de restaurar a propriedade e vendê-la para receber o lucro depois. Ele e sua esposa, Olivia (Carla Gugino), têm cinco filhos, os quais começam a ter encontros estranhos enquanto moram na casa. Steven (Paxton Singleton) por ser mais velho, é o menos suscetível; Shirley (Lulu Wilson) aprende sobre a morte com gatinhos misteriosos; Theo (Mckenna Grace) pressente monstros e te conhece com um simples toque; e Luke (Julian Hilliard) e Nell (Violet McGraw) são gêmeos e os membros mais jovens da família, e são assombrados por fantasmas recorrentes: a Moça do Pescoço Torto e a Abigail.

Então, nos dias atuais, fica claro que os fantasmas da Residência Hill não são os únicos a atormentar os Crain. A mãe morreu em casa em um incidente que se torna um dos mistérios centrais da série, e o trauma desse evento se espalhou pela vida dos membros sobreviventes da família. Hugh mais velho (Timothy Hutton) agora está muito afastado de seus filhos, enquanto Steven (Michiel Huisman) irritou seus irmãos ao escrever uma ficção de terror de enorme sucesso que tira proveito da história sombria de sua família. Shirley (Elizabeth Reaser) transformou sua fixação em “resolver” a morte em uma carreira como agente funerário. Theo (Kate Siegel) é uma psicóloga que evita todos os relacionamentos. Luke (Oliver Jackson-Cohen) é um viciado em heroína em recuperação e Nell (Victoria Pedretti) começa a ver a Moça do Pescoço Torto novamente na idade adulta, após uma profunda perda pessoal.

Como convém ao gênero, Flanagan se apóia fortemente na narrativa visual. A Residência Hill é uma monstruosidade arquitetônica sem equilíbrio ou simetria em sua construção; e seus interiores são opacos e sem vida, como se a névoa que circunda o exterior também se infiltrasse para dentro.

A Maldição da Residência Hill esconde espectros e aparições em diferentes episódios como ovos de Páscoa assustadores para os espectadores encontrarem. O resultado, para os telespectadores, é que cada cena começa a parecer estar em um local escuro e assustado, cada suporte ou porta ou painel de vidro errante parece sugerir coisas que não estão realmente lá. A série dá seus sustos de forma imprevisível, silenciando o áudio para se preparar para pulos de susto.

Esta versão de A Maldição da Residência Hill, pega a concepção de Jackson da Residência Hill como uma lupa para a fragilidade humana e a neutraliza. O programa de Flanagan passa a melhor parte dos 10 episódios detalhando como uma casa amaldiçoada arruinou a vida de todos que a encontraram. O tema predominante é a dor e a sensação de medo que acompanham a casa- medo de perder as pessoas que você mais ama e medo de não ser capaz de protegê-las e, esse tipo de medo pode transformar as pessoas em loucos.

5 pipocas!

Em cartaz na Netflix.

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